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Você conhece o ciclo pecuário?

Por Fabíola Lino em 1 de outubro de 2020

A pecuária de corte é uma atividade plurianual, influenciada por diversos fatores que geram resposta gradativa na produção e no preço da arroba.  Neste contexto, o abate de fêmeas, os preços do bezerro e do boi gordo se correlacionam de forma cíclica formando o ciclo pecuário. Conhecer o ciclo facilita na tomada de decisão para gerenciar a produção, os riscos e obter melhor rentabilidade.

O ciclo pecuário apresenta fase de alta e baixa nos preços da arroba, os quais se repetem ao longo dos anos. Tem duração aproximada de cinco a seis anos, bem inferior ao que se observava antigamente, em virtude da aplicação de tecnologias, redução na idade ao abate e melhoria da produtividade

Portanto, conversaremos sobre o ciclo pecuário e por que conhecer a sua dinâmica é importante para a tomada de decisão na fazenda.

Quem comanda a pecuária é a vaca

O abate e a retenção de fêmeas geram impactos em toda a cadeia pecuária e resultam em épocas de alta e baixa nos preços da arroba. 

Dessa forma, quando reduz o preço pago pelo bezerro há uma tendência coletiva, também chamada de efeito “manada”, em aumentar o abate de fêmeas. A redução na margem de lucro da fase de cria, impulsiona os pecuaristas a enviarem as matrizes para o abate na tentativa de melhorar a receita da fazenda. E, com isso, pagar os custos pecuários.

No primeiro trimestre do ano há naturalmente uma maior oferta de boi gordo e o abate de fêmeas contribui significativamente para aumentar a oferta de animais no mercado, pressionando a arroba do boi gordo para baixo.  Esse é um momento em que muitos produtores deixam a pecuária, pois outras atividades passam a ser mais atrativas financeiramente. 

O aumento no abate de fêmeas compromete a produção de bezerros nas fazendas e a sua disponibilidade no mercado. Isso prejudicará a próxima safra, pois reduzirá o estoque e, consequentemente, haverá menos animais para a reposição e abate.

Dessa forma, os frigoríficos, que precisam atender às demandas interna (doméstica) e de exportação de carne bovina, também serão afetados.  Assim, a menor safra de bezerros decorrente do abate de fêmeas, resulta em uma quantidade insuficiente de animais para atender a demanda. Neste momento, com a oferta restrita de boi gordo, o preço da arroba sobe, de acordo com a lei da oferta e da demanda. 

Com a arroba do bezerro também valorizada devido à escassez de animais no mercado, há um movimento de retenção de fêmeas nas fazendas. Os pecuaristas seguram as matrizes para aumentar a produção de bezerros e aproveitar os altos preços da arroba.

A fase de cria passa novamente a ser atrativa, tanto para os investimentos na pecuária quanto para os “oportunistas”. Aqueles que não estavam na atividade e resolvem iniciar em função da elevação nos preços da arroba. 

Entretanto, a retenção de fêmeas aumentará a produção de bezerros, isso ampliará o estoque de animais na fazenda e, consequentemente, a próxima safra terá mais animais na recria e engorda. Assim, a maior disponibilidade de bezerros no mercado reduzirá o seu preço e levará ao aumento no abate de fêmeas.

Diante do exposto, o ciclo pecuário apresenta duas fases distintas:

Alta do ciclo: aumento no abate de fêmeas 🡪 redução da disponibilidade de bezerros 🡪 aumento no preço da arroba do boi gordo, bezerro e boi magro

Baixa do ciclo: redução no abate de fêmeas 🡪 aumento na oferta de bezerros 🡪 redução no preço da arroba do boi gordo, bezerro e boi magro

Veja abaixo detalhadamente o ciclo pecuário:

Fonte: Mariane Crespollini

Em 2020, a pecuária está passando pela fase de alta no ciclo pecuário, com aumento nos preços da arroba do boi gordo, bezerro e boi magro. Na cotação semanal da Scot Consultoria, os preços médios são de R$ 245,00 reais/@ para boi gordo (livre de impostos), R$ 266,00 reais/@ para boi magro e R$ 323,00 reais/@ para bezerro aos 12 meses. 

De acordo com o relatório do IBGE, no segundo trimestre de 2020, o total de fêmeas abatidas foi de 2,90 milhões de animais, correspondendo a 39,7% do total de bovinos abatidos (Gráfico). O abate de novilhas correspondeu a 29,7% do total de fêmeas, o equivalente a 860,28 mil animais. Na comparação com o segundo trimestre de 2019, o abate de vacas e novilhas reduziu 18,9% e 13,1% respectivamente. Ou seja, está ocorrendo o movimento de retenção de fêmeas nas fazendas. 

Essa redução da participação de fêmeas no abate gera valorização da arroba dos machos. Podemos então considerar que a oferta de animais para o abate é o balizador da pecuária e o abate de fêmeas altera o patamar dos preços. 

No segundo trimestre de 2020 foram abatidos 4,4 milhões de bovinos machos. O abate de animais adultos reduziu 0,9%, enquanto o de garrotes aumentou 0,7% em comparação ao segundo trimestre de 2019. 

Dessa forma, o menor número de animais abatidos, aliado a oferta restrita de boi gordo para abate e as intensas exportações de carne tem mantido em alta os preços da arroba. 

Contudo, é importante ressaltar que maiores preços não significam maior lucratividade. Isso porque, os preços da reposição e dos insumos (principalmente milho e soja) também estão elevados, aumentando o custo de produção.   Observa-se no gráfico abaixo a oscilação nos abates de bovinos nos anos de 2015 a 2020. É notável a retenção e o aumento no abate de fêmeas que ocorreram em 2015 e 2018 respectivamente.

Gráfico. Evolução da participação de machos e fêmeas no abate de bovinos por trimestre – Brasil – trimestres 2015-2020.

Por que é importante entender o ciclo pecuário?

Entender o ciclo pecuário e as fases de alta e baixa nos preços, permite planejar as ações de compras, o custo de produção, investimentos e os melhores momentos para a venda.

Sendo assim, o conhecimento do ciclo pecuário é fundamental para orientar a tomada de decisão “dentro da porteira”, o único lugar que controlamos.

O preço da arroba é um dos fatores que impactam o lucro na pecuária de corte. Contudo, o pecuarista tem poder de decisão sobre o que acontece dentro da fazenda, no que diz respeito ao desempenho animal (ganho de peso), a taxa de lotação, e aos custos de produção. Um planejamento bem elaborado e boas estratégias de compra possibilitam reduzir os custos e maximizar a produção para entregar mais arrobas a um preço satisfatório. 

Na fase de alta do ciclo é importante estar atento à aquisição de animais. Isso, porque o ciclo produtivo é longo e, até o bezerro virar um boi gordo pronto para o abate, o mercado terá mudado. Inclusive, é possível que na hora da venda ao frigorífico os preços estejam desfavoráveis, em um momento de baixa do ciclo. Logo, o preço de venda impactará negativamente e o seu lucro será menor, principalmente se a produtividade e os custos não estiverem bem ajustados. 

Nesse contexto, é fato que o planejamento e a gestão são indispensáveis para o sucesso na pecuária de corte. Por isso, conheça o iRancho e faça uma gestão eficiente da fazenda, tenha registros dos dados produtivos, custos, compras e vendas e se prepare para os momentos de alta e baixa do ciclo. 

Portanto, ao analisar os momentos e as tendências de preços de acordo com as épocas do ano e com as fases do ciclo pecuário, o pecuarista tem informação para elaborar o seu planejamento produtivo e utilizar ferramentas e estratégias para se proteger do risco de preços. Assim, ficará menos refém do mercado e do efeito “manada”. 

Referências

https://www.scotconsultoria.com.br/noticias/articulista-ver/9/rogerio-goulart/
Entrevista Mariane Crespolini – ciclo pecuário https://www.youtube.com/watch?v=ErjAFUWXnU4&t=183s

Fabíola Lino SOBRE O AUTOR
Fabíola Lino

Doutora em Zootecnia, professora universitária e Diretora Estadual da Associação Brasileira de Zootecnistas.

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