Relação entre programação fetal e qualidade de carcaça

Foto: iRancho

 

Você sabia que a nutrição da vaca gestante afeta a qualidade dos seus bezerros?

 

Vacas que não foram bem nutridas durante a gestação podem gerar bezerros ruins, com pior desempenho na cria, recria, terminação e qualidade de carcaça ao abate. 

 

Por isso, não fornecer alimento em quantidade adequada e de qualidade para as fêmeas gestantes do rebanho pode fazer você perder dinheiro.

 

A fase reprodutiva na pecuária de corte geralmente ocorre nos meses de maior disponibilidade de forragem, entre novembro a janeiro, quando se realiza a estação de monta

 

Assim, a vaca emprenha durante a estação que tem alimento disponível, contudo, parte da gestação coincide com o período crítico de disponibilidade de forragem, que é a estação seca do ano. O que resulta em limitação nutricional para bom desempenho e crescimento do feto. 

 

A gestação das fêmeas bovinas tem duração média de 9 meses, e é dividida em terço inicial, médio e final. Tradicionalmente, o produtor preocupa-se muito com o terço final da gestação, porque é nessa fase que o crescimento do feto é maior. E, acaba negligenciando os primeiros meses da gestação. 

 

No entanto, o terço inicial e médio da gestação são de grande importância para o desenvolvimento do bezerro. A deficiência de nutrientes nestas fases resulta em menor número de fibras musculares, e consequentemente afetará o ganho de peso do bezerro após o nascimento. 

 

Neste sentido, a nutrição materna ganhou relevância no país. Entende-se programação fetal como o estímulo maternal no período fetal que impacta o desenvolvimento e crescimento do bezerro.   

 

O tecido muscular tem baixa prioridade na distribuição dos nutrientes que serão disponibilizados para o feto em desenvolvimento, quando compara-se com órgãos como o coração, cérebro e fígado. Dessa forma, a formação de tecido muscular é prejudicada em situações de baixa disponibilidade de nutrientes, como por exemplo, quando a vaca está em pasto ruim e sem suplementação. 

 

A formação de fibras musculares, também chamada de miogênese (Figura 1), acontece na gestação, principalmente, no terço médio. É a etapa de hiperplasia (aumento do número de células). A restrição de nutrientes nessa fase resulta em menor formação de fibras musculares. 

 

No terço final de gestação o bezerro apresenta um crescimento significativo. Nessa fase ocorre hipertrofia (aumento de tamanho) das fibras musculares. Se a vaca não tiver nutrição adequada haverá menor hipertrofia e isso diminuirá o peso do bezerro ao nascimento.  

 

O bezerro que teve formação correta de fibras musculares, com uma boa nutrição após o nascimento ainda poderá recuperar peso. Isso porque, o crescimento muscular após o nascimento ocorre por meio da hipertrofia das células musculares já existentes.

 

Figura 1 – Fonte: Adaptado de Du et al. (2009)

 

A nutrição do feto no terço médio e final da gestação e na fase de cria durante os primeiros meses de vida, é fundamental para produção de células de gordura (adipócitos). Estes que, sofrerão hipertrofia e formarão a gordura de cobertura (subcutânea) e a gordura intramuscular (marmoreio). Portanto, conferindo qualidade à carcaça bovina. 

 

A hiperplasia (adipogênese), aumento da quantidade de adipócitos, ocorre principalmente na fase final do desenvolvimento fetal (terço final da gestação) e se estende até, aproximadamente, 250 dias de vida do bezerro após o nascimento. Período chamado de janela de marmoreio (marbling window), em que, uma boa nutrição permite obter maior número de adipócitos. 

 

Após os 250 dias de vida do bezerro ocorre a hipertrofia, ou seja, enchimento dos adipócitos. Mas é na terminação que isso efetivamente acontecerá, fase na qual há uso de dietas com grande densidade energética. A deposição de gordura intramuscular acontece por meio da hipertrofia dos adipócitos existentes. 

 

Vale lembrar que o marmoreio também tem fator genético, portanto, algumas raças como Wagyu e Aberdeen Angus apresentam maior gordura de marmoreio comparadas à raça Nelore. 

 

Contudo, a má nutrição materna durante a formação do bezerro na barriga da mãe e na fase de cria, resulta em menor número de adipócitos. Assim, o animal na terminação, poderá apresentar pior acabamento de carcaça do que aquele que a nutrição materna foi melhor. 

 

Portanto, a vaca que teve uma nutrição ruim durante a gestação vai gerar um bezerro de pior qualidade. 

 

Nesse contexto, é fundamental investir em uma boa nutrição para as matrizes da fazenda. Fornecer alimentos de qualidade e com custo satisfatório. Por isso, faça a gestão eficiente da fazenda e acompanhe a nutrição das suas matrizes e dos bezerros por meio do iRancho

 

Fonte: DU, M.; TONG, J.; ZHAO, J.; et al. Fetal programming of skeletal muscle development in ruminant animals. Journal of Animal Science, v.88, n.13, suppl, p.E51-60, 2009.

Escrito por: Fabíola Lino. Doutora em Zootecnia, professora universitária e Diretora Estadual da Associação Brasileira de Zootecnistas.

Últimos comentários em “Relação entre programação fetal e qualidade de carcaça”

  1. Parabéns pelo texto, muito interessante e atual!
    Faço ciclo completo, e a alguns anos venho melhorando os pasto e a nutrição das minhas matrizes e percebemos que isso tem melhorado não só o índice de prenhez ( que era o objetivo inicial) mais tbm a idade, peso e qualidade de abate dos animais e ainda a maior índice de prenhez em novilhas jovens , e essa por sua vez permanece mais tempo no rebanho.. enfim, começando a olhar e cuidar melhor a matriz conseguimos melhor todo sistema de produção !

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