Os segredos para o sucesso na recria a pasto

A recria compreende a fase da desmama até o momento em que o animal vai para reprodução ou terminação. É a fase mais longa da pecuária de corte, e na maioria das vezes pouco valorizada. 

A estacionalidade da produção forrageira afeta o desempenho animal na recria e ocasiona um período de maior ganho de peso (estação das águas) e outro de menor ganho ou perda de peso (estação seca). 

Por essa razão, o pecuarista precisa ficar atento para evitar o “boi sanfona”, que ganha peso nas águas e perde na seca. Esse animal permanece muito tempo na fazenda, pois demora atingir o peso de abate, aumenta os custos da @ produzida e gera menor receita. 

Por isso, busca-se realizar a recria no menor período possível, com uso de animais precoces, bezerros que foram desmamados com peso adequado e uma boa nutrição.  

Além disso, é preciso projetar qual o ganho de peso total (GPT) e o ganho médio diário (GMD) que se deseja obter na recria. Feito isso, é necessário definir a nutrição e os manejos que permitam alcançar as metas estabelecidas. 

Simulação:

Considere que uma fazenda desmamou os bezerros com 200 kg e realizará uma recria de 12 meses (360 dias). Se o GMD do período total de recria for de 0,330 kg, os animais levarão 90 dias para ganhar 1@ e ao final da recria o ganho será de 4@. 

Caso o GMD seja de 0,580 kg, os animais ganharão 7@ e levarão cerca de 51 dias para ganhar 1@ (Tabela 1). Com isso, serão obtidos animais mais pesados ao final da recria, o que possibilita reduzir o tempo necessário para a terminação e a idade ao abate.

Vale ressaltar que o ganho de peso na seca será inferior ao das águas, por isso, é preciso também projetar o ganho esperado para cada estação. E, lembre-se que o ganho de peso dependerá da genética do animal e da nutrição aplicada. 

GPT = ganho de peso total; GMD = ganho médio diário.
Tabela 1. Simulação de resultados da recria considerando diferentes ganhos de peso durante um período de 12 meses (360 dias).

É importante destacar que o capim é o principal alimento para aos animais na recria a pasto. Por isso, forneça uma forrageira de qualidade. Esta deve possuir alta relação folha/colmo, facilidade de se estabelecer, resistência ou tolerância às pragas e doenças e boa capacidade de recuperação após o corte. Além disso, é preciso ter  um bom valor nutritivo, que se trata de uma característica bastante variável e que depende da idade da planta, época do ano e qualidade do solo. 

Nos sistemas de pastejo o uso de alturas de entrada e saída dos animais para cada capim, permite consumo de forragem com boa relação quantidade X qualidade. Isso porque, com o avanço da idade da planta (maturidade), há aumento na quantidade de colmo e nos teores de fibra e perda de qualidade. Por isso, é importante respeitar o ponto ideal de colheita (entrada) pelo animal. 

Na estação seca do ano o capim tem crescimento reduzido, possui maiores teores de fibra, menor teor de proteína e baixa digestibilidade. Neste sentido, para manejar corretamente o pasto é importante conhecer a capacidade de suporte, ou seja, a quantidade de animais que seus pastos são capazes de suportar. 

A capacidade de suporte é diferente nas estações do ano em virtude da disponibilidade de forragem, pois a produtividade da forrageira irá determinar o número de bovinos que poderão ocupar a área de pastagem. Dessa forma, a capacidade de suporte será menor na seca em comparação às águas, assim, a taxa de lotação também será.  

A taxa de lotação é representada em unidade animal (UA)/ha, quantidade de UA em uma determinada área durante um período de pastejo.

Quando a taxa de lotação é baixa em relação à capacidade de suporte tem-se o subpastejo. Consequentemente, sobra pasto e o capim cresce além da altura ideal de colheita. O pasto fica “passado” e perde qualidade.

O superpastejo ocorre quando a taxa de lotação é alta em relação à capacidade de suporte da pastagem. Neste caso, há mais animais do que a área consegue alimentar, sendo que eles consumirão muitas folhas e o pasto ficará “rapado”. O superpastejo dificulta o crescimento do capim e o restabelecimento da forrageira, levando a uma degradação da área de pastagem.

Deste modo, busca-se o pastejo ótimo, ou seja, quando a taxa de lotação é compatível com a capacidade de suporte. Assim, haverá comida suficiente para alimentar todos os animais e não ocorrerá degradação da pastagem. 

Quer saber a taxa de lotação atual dos seus pastos?

O cálculo é simples:  1 UA equivale a 450kg de peso vivo.  Considere o peso médio dos animais de 360 kg. Então faça a divisão: 360 / 450 = 0,80 UA.  Se a fazenda possui 50 animais será: 50 animais x 0,80 = 40 UA. 

Para saber quantas UA/ha é só dividir a quantidade de UA pela área pastejada (total de ha de pastagem que os animais estão). Portanto, em uma fazenda com 40 UA com área de pastagem de 20 ha, a taxa de lotação atual é de 2,0 UA/ha

Infelizmente a média brasileira é de menos de 1 UA/ha. O que demonstra a baixa eficiência no uso do pasto. Por essa razão, é importante buscar o auxílio de um profissional para calcular a capacidade de suporte dos seus pastos e adotar estratégias para melhorar a taxa de lotação da fazenda.

Como já foi dito, na recria a pasto, o capim é a principal fonte de nutrientes para os bovinos, contudo, não consegue atender toda a demanda nutricional deles. Considerando-se que na estação seca há baixa oferta de forragem e esta é de pior qualidade, a suplementação é fundamental para que os animais não percam peso e/ou consigam manter os ganhos. 

Já na estação das águas, período de maior disponibilidade de forragem, o uso de suplemento corrige deficiências nutricionais e maximiza o ganho de peso. Mas, cabe ao nutricionista responsável indicar o melhor suplemento de acordo com os objetivos e metas de cada fazenda. 

Por fim, para um bom consumo de forragem e suplemento não esqueça da importância da água. É preciso fornecer água limpa, fresca e em quantidade suficiente que atenda a demanda de cada animal. Para isso, faça a limpeza constantemente e use bebedouros que possuam enchimento rápido. 

Os animais ingerem diariamente cerca de 10 a 12% do seu peso corporal em água, e em dias quentes a ingestão aumenta. Portanto, para garantir saúde e bem-estar dos animais é preciso que tenham água em quantidade adequada e de qualidade. A falta de água limita o ganho de peso, com isso o animal reduz o consumo de alimentos e ganha menos. 

Diante do exposto, nota-se que realizar a recria a pasto demanda planejamento constante. Dessa forma, é imprescindível adotar medidas para melhorar a gestão da fazenda. 

Para ter maior controle dos pastos, suplementação e gerenciamento do rebanho você pode contar com o auxílio do iRancho. Nele, você pecuarista armazena informações confiáveis e de fácil acesso para um bom planejamento e condução da recria.

Portanto, os segredos para o sucesso na recria a pasto são os 4Bs: Bom animal, Boa nutrição, Bom manejo e Boa gestão. Mas, é importante ressaltar que não há receita de bolo na pecuária de corte. Cada fazenda precisa ajustar os recursos humanos, naturais, financeiros e produtivos disponíveis, com planejamento e controle adequados para a sua realidade. Por fim, lembre-se de , comprar ou produzir bezerros com boa genética para ganho de peso. Feito isso, trace a estratégia nutricional, execute-a corretamente e faça a gestão da fazenda com o iRancho.


Por: Fabíola Lino. Doutora em Zootecnia, professora universitária e Diretora Estadual da Associação Brasileira de Zootecnistas.

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